Na mente de uma mãe de autista

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Como será no futuro? Será que um dia aprenderá a falar? E o fará de maneira “normal”? O que é normal? Será que vai concluir o ensino fundamental? Ensino médio? Fazer uma faculdade, quem sabe? Vai ter um mestrado em Física? Não dizem que muitos autistas são bons em exatas? Pois então… Pode ser que seja um gênio em Física, com pós-doutorado e tudo o mais… Mas por que estou pensando nisso? Na verdade, não importa o que vai fazer, o importante é que seja feliz! Mesmo que não consiga se inserir no mercado de trabalho, que não fale, que não se comunique… Fundamental é que sorria. É nisso que vou me focar, no seu sorriso.

Será que vai se apaixonar? Será que vai ser correspondida? Namorar? Família e filhos? Se bem que muita gente nem quer essas coisas… Mas será que vai querer? Ai… Estou pensando novamente em coisas que não queria pensar! O que importa é ela estar feliz. Vou fazê-la feliz e o resto será como tem que ser. Vou amá-la, protegê-la e prometo a mim mesma que a farei feliz enquanto eu viver. Mas… E quando eu não estiver mais aqui!?

Queria poder atrelar minha vida à dela de tal forma que eu tivesse a certeza de que cuidaria dela para todo o sempre, fazendo-a feliz todos os dias. Queria envolvê-la num abraço eterno, num abraço terno, num mundo perfeito. Queria poder estar em todos os lugares e todas as horas, evitar todas as lágrimas, amparar todas as quedas. E quando tudo isso me é negado, resta sempre o desejo de ao menos ter a sorte de saber que um dia ela terá a possibilidade de seguir sozinha, pelos seus passos, sua própria estrada.

Perguntei mil vezes aos médicos e terapeutas se algum dia ela vai falar de forma típica, se terá amigos. Por mil vezes, me disseram que ninguém pode prever isso, que há autistas que se desenvolvem de forma a ter uma “vida normal”, enquanto outros ficam dependentes. Por mil vezes quis negar ou esconder minhas ansiedades. E, por mais mil vezes, desejei que entendessem que não há como não roer as unhas, ter gastrite e ficar pensando e repensando em como será o futuro, num mundo onde as incertezas lembram-me dia após dia que eu não estarei aqui para ela para todo o sempre.

Seja típica, seja atípica, toda criança tem um futuro incerto, e isso por si só gera ansiedade em toda e qualquer mãe. Porém mães de autistas são inseridas em um mar de dúvidas. É de se esperar que uma criança considerada “normal” desenvolva-se conforme dizem os livros de desenvolvimento infantil (embora sempre uma ou outra coisa atrase ou adiante). Mas de uma criança autista a sensação é que se pode esperar tudo do futuro: já é esperado que venha a aprender a falar, mas também deve ser esperado que não venha a aprender; é esperado que expanda seus interesses, mas também é esperado que mantenha seus interesses restritos; é esperado que venha a aprender a se socializar, mas também é esperado que nunca desenvolva essa habilidade.

Não importa em que fase de vida ela esteja ou o quanto tenha se desenvolvido e quando possa se desenvolver, sei que sempre vou batalhar para que ela tenha as melhores possibilidades de viver feliz quando eu estiver por perto, mas também quando eu não estiver. E é por isso que sei que minhas incertezas, dúvidas e ansiedades serão sempre presentes, dosadas pela medida da maternidade, mas também pelas incertezas que o autismo traz.

Talvez o que muitas pessoas não percebam é que a ansiedade da mãe de uma criança autista sobre o futuro, não é um medo de que os sintomas do autismo nunca cessem, mas sim um desejo de construir um futuro mais seguro, mais feliz e mais estável para seus filhos. Como mães, queremos ser necessárias a nossos filhos para nos sentirmos mães, mas também desejamos que não sejamos imprescindíveis quando eles estejam adultos, pois a independência de terceiros é uma forma de liberdade, e de certa forma todos queremos ser livres.

Certos dias meu coração aperta, pela incerteza de não saber como minha pequena se desenvolverá. Quando isso acontece, para ser uma adulta forte, eu volto a ser criança e brinco de pirata. Penso que estou numa grande aventura, por mares desconhecidos.

A jornada será longa, haverá tormentas e tempestades. Algumas vezes vai parecer que o navio naufragará, mas eu seguro no timão e repito para mim mesma que sou uma ótima pirata. Também sei que haverá dias que o sol vai brilhar no convés, e as gaivotas farão belas danças. No caminho encontrarei outros piratas como eu, navegando seus navios azuis, visando à linha incerta do horizonte. Lindas sereias e feios monstros marinhos também podem cruzar meu caminho.

Reservo meu chapéu de capitã para essa criança que tanto amo, mas, mesmo que ela nunca possa usá-lo, sei que o navio seguirá, sempre seguirá, comigo seguirá, mesmo sem mim, seguirá. Afinal, navegar é preciso! Não sei bem para onde navego, apenas sei que irei chegar. E assim, imaginando, incertezas assustadoras se tornam estimulantes, e decido então simplesmente não pensar… Simplesmente navegar, navegar e navegar.

Fonte: Diário de um Autista
Por: Hanna Baptista

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Em seu Art. 3º afirma que o autista tem direito ao acesso à educação e ao ensino profissionalizante. Depois, em parágrafo único, a mesma lei afirma que “Em casos de comprovada necessidade, a pessoa com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2º, terá direito a acompanhante especializado.”. Aqui está outro grande alívio para nós, profissionais, que temos lutado por acompanhante especializado de escola em escola e que já ouvimos tantos “nãos” e tantos estranhamentos frente a este pedido. O acompanhante especializado é direito do autista e é fundamental para que ele se adapte ao meio escolar e consiga aproveitar ao máximo as estimulações deste contexto.

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